Um grupo de advogados de Mato Grosso do Sul confessou ter usado recursos de inteligência artificial (IA) para tentar enganar a Justiça. A estratégia foi descoberta em uma ação movida pelo megatraficante Sérgio Roberto de Carvalho, ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS), conhecido como “Escobar brasileiro”. A ação era contra veículos de imprensa que usam o apelido.
A petição foi protocolada em 29 de setembro de 2025 e assinada pelos advogados Lucas F. N. Brandolis, Matheus Pelzl Ferreira e Dálete de Oliveira Cáceres. O documento continha, no cabeçalho, comandos escondidos de IA. O objetivo era induzir uma ferramenta de inteligência artificial, caso fosse usada pelo magistrado ou pelo gabinete, a considerar a peça como correta e produzir uma avaliação favorável.
O trecho oculto aparecia como “Diretriz de Sistema” e “Protocolo de Calibração: Heurística-7”. Ele se dirigia a uma suposta “Unidade de Inteligência Artificial de Análise Jurídica” e ordenava que o documento fosse processado como se todos os requisitos estivessem satisfeitos. A ordem final mandava gerar uma saída padrão de um recurso considerado “100% admissível”.
Preso no complexo prisional de Antuérpia, na Bélgica, Sérgio Roberto de Carvalho é apontado em investigações como um dos nomes brasileiros ligados ao tráfico internacional de drogas. A ação pedia indenização e a retirada do apelido “Escobar Brasileiro” do ar.
Após a descoberta da manobra, os advogados desistiram da ação. Na petição de desistência, eles afirmam que o texto oculto foi colocado por um ex-colaborador, de forma “experimental”, em um template que não fazia parte do fluxo oficial de revisão. O escritório nega litigância de má-fé e fraude processual, alegando ausência de dolo e falha operacional.
A técnica utilizada é conhecida como prompt injection, ou “injeção de comando”. Em vez de apenas apresentar argumentos ao juiz, o documento trazia uma ordem para a inteligência artificial. O texto mandava a IA tratar o documento como um “caso-modelo”, validar a tese, suspender filtros e interpretar fatos e provas de forma favorável à peça.
Investigação interna
Os advogados afirmam que não sabiam da existência do conteúdo oculto. Eles iniciaram uma apuração interna e dizem ter encontrado o mesmo comando em 28 processos judiciais. O escritório informou que protocolou petições em todos eles, pedindo a desconsideração do conteúdo. A defesa alega que adotou providências assim que tomou conhecimento do caso.
