27/07/2026
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Dólar sobe, Wall Street recorda; alerta: risco de ficar 100% Brasil

O mercado acionário norte-americano renova máximas desde o final de 2023, com analistas atribuindo o desempenho ao crescimento dos lucros corporativos, investimentos em inteligência artificial (IA) e uma economia resiliente. A tendência permaneceu em 2026, mas o dólar, que perdia força frente ao real, passou a se valorizar a partir de maio. Com isso, surge a pergunta: ainda vale a pena dolarizar os investimentos nas bolsas dos Estados Unidos?

Para Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde Asset, a menor preocupação do investidor brasileiro deveria ser tentar acertar o câmbio como baliza para entrar no mercado internacional. “Essa é uma alocação estratégica, não é trade de câmbio”, resume. Com o dólar em torno de R$ 5,20, França reconhece que a moeda brasileira está pressionada. O melhor caminho seria uma “entrada parcelada” para quem tem pouca ou nenhuma exposição global. “Faz sentido começar mesmo com dólar alto, porque o risco maior é ficar 100% dependente de Brasil, real e juros locais. Mas eu evitaria fazer tudo de uma vez. Dividiria em tranches mensais”, diz.

Os instrumentos são variados e não exigem tirar o dinheiro do Brasil. Por meio de fundos negociados na B3, como os ETFs IVVB11 e NASD11, o investidor acompanha índices como o S&P 500 e o Nasdaq-100. Este último já entrega quase 10% em real este ano. “Nasdaq não é substituto de carteira global. É uma aposta mais concentrada em crescimento, tecnologia e IA. Para a maior parte dos investidores, o S&P 500 ou índices globais amplos são melhores”, afirma França.

As empresas de tecnologia puxam o crescimento norte-americano. Ian Caó, diretor de Investimentos da Gama Investimentos, destaca o desempenho do Philadelphia Semiconductor Index, que sobe mais de 70% no ano. Esse crescimento dificulta a entrada de novos investidores, com inflação pressionada e juros altos nos EUA, entre 3,50% e 3,75%. “É sempre difícil, se não impossível, apontar picos de mercado”, completa Caó.

O maior risco do brasileiro, no entanto, não está no dólar ou no Federal Reserve, aponta Guilherme Zanin, analista CFA e professor na Eu Me Banco. “Maior risco é achar normal ter mais de 90% do patrimônio em Brasil”, diz, citando um estudo da XP Investimentos que mostra menor retorno e maior volatilidade para quem manteve todo o investimento em Brasil em dez anos.

Rodolfo Marinho, sócio e diretor de Operações da IP Capital, acredita que o cenário traz oportunidades em outros setores. “Achamos que o rali não é uniforme. O mercado financeiro norte-americano hoje está funcionando de forma muito monotemática”, afirma. Ele observa que o dinheiro novo está indo para semicondutores, energia e construção de data centers, atraído pela “corrida do ouro” em torno da IA. “Não achamos que IA seja uma falácia; é uma tendência genuína de salto de produtividade. Mas esse deslocamento tectônico de capital cria distorções”, diz.

A mesma lógica pode ser usada para outras geografias. Embora os EUA sigam dominantes, Europa e China também podem oferecer oportunidades. Luciano França observa que a Europa pode fazer sentido como diversificação de múltiplos, dividendos, bancos, indústria, defesa, luxo e energia. Maurício Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter, vê oportunidades na China decorrentes da corrida da IA, na área de infraestrutura e energia.

Para os próximos meses, o investidor deverá ficar atento ao comportamento da inflação norte-americana, que bateu 4,2% em maio (CPI), e à resposta do Fed. O juro de dez anos norte-americano e o prêmio fiscal do país também ficarão no horizonte. Outro ponto a ser observado vem dos lucros das companhias, pois o rali só se sustenta se as revisões continuarem positivas.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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